Esportes

Análise: o futebol brasileiro precisava de Jorge Jesus

Técnico do Flamengo colocou o time na liderança do Brasileirão com jogo coletivo, treino árduo e exigindo o máximo de cada atleta

15/10/2019 15h52
Por: Redação
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A chegada de Jorge Jesus foi a melhor coisa que aconteceu no futebol brasileiro em muitos anos.

Antes de continuar, duas informações relevantes: primeiro, sou flamenguista; segundo, gosto mais de futebol do que do Flamengo.

Se vai ganhar título, ainda não se sabe. Mas mesmo se daqui para frente vierem eliminações e derrotas, ficarão para os flamenguistas recordações de clássicos que se tornaram históricos pela superioridade rubro-negra. Rivais acuados em seus estádios e no Maracanã e um time capaz de sufocar muitos e muitos grandes de um jeito que eu, pelo menos, poucas vezes vi por aqui.

E a todos os que gostam de futebol mais do que de seus times sobrarão lembranças como a matada de bola do Arrascaeta no jogo contra o Inter, a finalização de Gabigol contra o Santos, as tabelas impressionantes entre Everton Ribeiro, Arrascaeta e Gerson ou frases que a gente não estava acostumado a ouvir.

Mais futebol, menos Libertadores

O "não entendo por que vocês minimizam o Campeonato Brasileiro", dito por Jesus, é um alento  para quem teve que engolir por anos a Libertadores, para quem viu os times nacionais desprezarem a qualidade em nome do "jeito de jogar a Libertadores", com estímulo a catimbas, violência e mau futebol.

Mas não são só as frases: é também o comprometimento. Quando ele exige 90 minutos de jogo intenso do zagueiro ao centroavante ele está colocando o nível de cobrança num patamar que a gente aprendeu ser desnecessário com Romários e Ronaldos, que precisavam de uma única bola para resolver os jogos.

Quando ele, assim como Jorge Sampaoli, do Santos, perde a paciência com erros sucessivos, ele não está defendendo apenas o Flamengo. Ele está defendendo a essência do esporte: que premia acertos, dedicação e superação.

Mas a gente, por aqui, achava isso bobagem.

A eficiência tirou a graça do esporte

Foram anos de campeões brasileiros que levaram títulos acumulando um-a-zeros mal jogados, mas "eficientes". Técnicos de times medianos ganharam fama, tornaram-se mestres na arte do resultado e da retranca num país que nas décadas de 80 e 90, quando comecei a jogar bola, vaiava quem dava um chutão ou um carrinho em campo.

A imprensa brasileira precisava de Jesus.

Em que momento deixamos de gostar de futebol? Em que momento paramos de comentar no dia seguinte a caneta do craque ou o passe devastador e passamos a nos contentar apenas com a vantagem no placar, a qualquer custo?

O Flamengo que Jesus põe em campo hoje e coloca na roda adversário por adversário é o mesmo ridicularizado pelo clubismo de inúmeras matérias.

O "refugo" Rodrigo Caio, "jogador de condomínio", anulou o endeusado Guerrero, hoje no Inter, Gerson, "que não deu certo na Itália" e "não valia o investimento", dá aula de versatilidade na defesa e no ataque e só me deixa triste por pensar por que eu já não o admirava no Fluminense? Antes de se machucar, o "supervalorizado" Arrascaeta estava jogando muito mais do que no ano passado no Cruzeiro, mas, se em 2018 esteve na lista dos melhores do Campeonato Brasileiro, neste ano sequer é citado como destaque da máquina montada por Jorge Jesus.

Era esperado, dentro da mediocridade que se acostumou a viver o futebol brasileiro, que agora parte dos adversários e de seus torcedores distorcessem os fatos para dizer que o Flamengo é beneficiado por VARs e árbitros.

Jesus chegou a um elenco de altíssima qualidade, é fato, mas lá mesmo na Gávea craques também eram sinônimo de jogadores pouco profissionais, folgados e mimados. Muitos do atual Flamengo tiveram indisposições inexplicáveis no passado e ganharam folga em momentos importantes para o clube. Aos berros, Jesus colocou todo mundo para suar a camisa. Formou um time que parece ter mais de 11 jogadores em campo e implodiu a lógica nacional de que é impossível disputar duas partidas por semana.

Não bastou o 7 a 1

É simbólico que na mesma edição do campeonato em que brilham Jesus e Sampaoli o técnico Luiz Felipe Scolari tenha sido demitido após maus resultados no Palmeiras. Ele, Cuca, no São Paulo, Mano Menezes, no Cruzeiro, e Abel Braga, no mesmo Flamengo, também fracassaram em 2019.

Felipão era o técnico do 7 a 1 na Copa de 2014, numa seleção em que o futebol europeu, pelos pés da Alemanha, tentou ensinar aos brasileiros, mas pouca gente no país quis entender isso, que eles estavam no caminho errado.

Simbólico também que nesse mesmo campeonato, o São Paulo tenha apostado quase todas as fichas em um único jogador, Daniel Alves. Para não dizer que é a estrela solitária, joga no Morumbi o meia Hernanes. Ambos também estavam no elenco daquela seleção brasileira humilhada no 7 a 1.

Arrastão

Jesus criou no Flamengo uma espécie de marcação que vi em poucos clubes de futebol, copiada da NBA, como ele mesmo afirmou.

Em alguns momentos, não sei se atendendo a um comando do treinador ou porque treinam assim e percebem a melhor hora, o time abafa o adversário, com dois ou até três jogadores sobre o rival. A velocidade duplica, triplica, mas logo em seguida volta ao normal, como se o grupo perdesse repentinamente o interesse pela bola.

O bote pode vir a qualquer momento. E se só esse detalhe não fascina os amantes de futebol, talvez tenhamos perdido para sempre o gosto pelo esporte.

Não é só o resultado que importa

Eu não lembro contra quem nem qual foi o resultado do jogo em que vi Michael Jordan cravar uma enterrada saltando de muito longe. E não me recordo exatamente a luta em que percebi que Mike Tyson era um boxeador imbatível.

Não sei a efetividade do saque Jornada nas Estrelas nem se a folha seca era a melhor opção para Didi. Garrincha poderia ser mais objetivo, mas isso o tornaria menos artista. E foi a beleza artística do esporte, de superar o impossível e entregar a opção mais bonita ao público, que me fez, desde muito pequeno, amar disputas em quadra, campo, tatames, piscinas, onde for. Fonte: R7

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