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Esportes FUTEBOL

'Odeio mesmo meu rival?' Torcida desvenda paixão no futebol

Até que ponto esse ódio ao oponente é real

19/11/2020 08h45
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Por: Redação Fonte: R7
Futebol é um esporte que mexe com paixões. Foto: Antonio Lacerda
Futebol é um esporte que mexe com paixões. Foto: Antonio Lacerda

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De tempos em tempos, o homem se depara com a sua irracionalidade. É inevitável. Passa então, a trabalhar para fazer algo com ela. A psicanálise busca entendê-la. E o futebol?

 

Com as redes sociais em alta, a exposição das celebridades e a transformação do esporte em negócio, essa irracionalidade ganhou força entre os torcedores. Acabou sendo um alimento para o discurso do ódio ao adversário. Levado em tom de brincadeira.

 

Mas até que ponto essa brincadeira é saudável? E até que ponto esse ódio é real? Torcedores e especialista ouvidos pelo R7 destrincharam um pouco desse universo cheio de incoerências, belezas e emoções no qual, em um mundo que tem cada vez mais combatido o preconceito, até a intolerância ao outro (no caso o rival) acaba sendo permitida.

 

Personagem de si mesmo

 

No hino do Flamengo, bem que Lamartine Babo, o autor, na pele do torcedor, lembrou que "teria um desgosto profundo, se não houvesse o Flamengo no mundo". Para o administrador Silvio Soares, 48 anos, mais um entre os milhões de flamenguistas até a medula, esta frase é verdadeira, mas não se levada ao pé da letra. Como tem que ser no futebol, segundo ele.

 

"Dizer que se odeia o adversário é uma forma de extravasar, uma válvula de escape. Não é que se odeia mesmo. É mais da boca para fora. No fundo, pode-se até gostar de enfrentar, de ter aquela emoção de jogar contra, para depois brincar. Faz parte do conjunto, do espetáculo. Se alguém briga ou mata com esse discurso, logicamente não está em um estado normal e nem é por causa do futebol, a motivação são outros problemas graves que a pessoa tem", observa.

 

É por isso que até o Fluminense é mencionado no hino flamenguista. Sinal de admiração. No futebol, no entanto, há também a permissão de você apenas "olhar o que é seu", dentro de um limite aceitável, segundo Soares.

 

"Sempre fui Flamengo, sou apaixonado, mas levar a paixão para um extremo é loucura e não faz alguém ser 'mais torcedor' do que o outro. Torcer é como um hobby. Se o Flamengo perde, claro, é desagradável, não durmo tão bem, mas tem que seguir em frente, faz parte. Quando ganha, vem aquela sensação boa. Claro, não fico olhando para o que acontece com o Vasco, me preocupo com o meu time. Torcedor é assim, focado em seu clube. Passa por aí a relação", diz.

 

Seja no estádio ou em frente à TV, como tem ocorrido por causa da pandemia, o torcedor é envolvido em uma atmosfera, como se participasse de um espetáculo teatral que, de certa maneira, também expõe os dramas e anseios humanos. Para Soares torcer é fazer parte deste enredo.

 

"Quando o torcedor veste a camisa, ele não deixa de ser um personagem, um 12º jogador, embarca no clima", admite.

 

Torcedor cirúrgico

 

Quando o doutor Ubiratan Mendonça Júnior, de 60 anos, surge pelos corredores do hospital, costuma ouvir brincadeiras, enquanto prepara as luvas e coloca a vestimenta para mais uma cirurgia do aparelho digestivo.

 

"Ô doutor, o paciente é palmeirense, não vai levar isso em conta".

 

Já acostumado, ele sorri e nem se lembra de que é um corintiano roxo, apaixonado por seu clube. Claro que seria inconcebível levar em conta este fator em situação tão importante, mas, de qualquer maneira, isso ilustra a maneira dele ver o futebol. E lidar com as emoções.

 

"Brinco muito com amigos palmeirenses. Mas isso não me ofende, acho absurdo chegar à vias de agressão. Nos anos 70, no Pacaembu eu ia a jogos e as torcidas se misturavam. A própria imposição de torcida única é absurda, é admitir que o ser humano não está conseguindo se controlar e ainda vive na Idade Média", ressalta.

 

Ele tem a convicção de que o fanatismo radical acaba afastando os verdadeiros torcedores do futebol.

 

"Ser agressivo e violento não significa torcer mais por um clube. É isso que afasta as famílias dos estádios, e acaba distanciando um público que deveria ser o foco maior do futebol. Assim, quando a pandemia acabar, o radicalismo continará contribuindo para que avôs, pais e seus filhos jovens não compareçam mais aos jogos juntos".

 

E quanto ao paciente palmeirense que o espera na sala de cirurgia?

 

"Ele pode ficar absolutamente tranquilo. Não é por aí e nunca vai ser. Futebol é valorização do ser humano". Assim como a Medicina.

 

Clube e dirigentes

 

A questão da competitividade está muito enraizada na rivalidade. Mas são coisas que não podem ser levadas ao extremo. Existem, mas no campo dos argumentos, segundo o santista Anderson Nagado, administrador, de 43 anos.

 

"Claro que não odeio o Corinthians. A questão que me incomoda está no comportamento de quem torce para o clube e dos dirigentes. Culturalmente, há muitos corintianos que acham o seu clube melhor, nos passam essa sensação e isso estimula a torcer contra", observa.

 

Nagado, no entanto, ressalta que essas rivalidades são restritas às discussões futebolísticas, na base dos diálogos. E realizadas entre amigos, como os do seu grupo de WhatsApp.

 

"Não vou brigar para provar, mas vou argumentar olhando para a história que meu clube é melhor. Claro que, se o Corinthians tem um grande jogador, não vou admitir em público, mas, para mim mesmo, não vou deixar de admirá-lo. Nas brincadeiras, claro que provoco. Nós, torcedores do Santos, somos 10% do grupo do WhatsApp", conta.

 

Para o santista, estar em minoria não significa perder a própria identidade

 

"Resistimos com argumentos nos debates em grupo, pois temos nossas glórias e revelamos mais da metade dos maiores jogadores do Brasil nos últimos tempos.

 

Quando, no entanto, a coisa extrapola, não é legal. Um são-paulino e um palmeirense foram até excluídos do grupo por começarem a radicalizar e entrar em discussões políticas. Tem limite para tudo", observa.

 

A psicologia explica

 

Futebol e política se misturam quando ambos tocam nas paixões humanas. Isso tem acontecido muito nos últimos temos, como constata a psicóloga Adriana Carbone, mestre pela PUC-SP.

 

"Na política, essa polarização radical faz os dois lados se odiarem sim. Amizades são desfeitas. No futebol, em tese, não se chega a tanto."

 

Mas, segundo a especialista, há situações em que, até mesmo no futebol, alguns fatores estão sendo ignorados, tanto pelos participantes do espetáculo quanto pelos organizadores. Um deles é quando as paixões extrapolam. Apesar das seguidas discussões a respeito, o ódio acaba prevalecendo no futebol.

 

"O futebol é um canalizador de emoções, acaba se tornando um meio de canalizar uma raiva vinda de outros fatores, conjugais, familiares, descontentamento com o chefe. E torcer acaba sendo uma oportunidade para dar expansão a esses sentimentos, em forma de uma pulsão de morte", diz.

 

Adriana considera também que, em várias situações, a intolerância acaba sendo permitida, mesmo em um momento no qual a sociedade aumentou o combate ao racismo, ao machismo e à homofobia.

 

No futebol, no entanto, a intolerância ao que é do adversário acaba sendo tratada como uma alegoria. Então o corintiano não usa verde, o jogador do Palmeiras não pode ir a um bar com um do Corinthians e por aí afora.

 

"Essa permissão maior existe porque envolve poder e dinheiro, das confederações e empresas. Alimentar as rivalidades é alimentar o marketing que possibilita a venda de camisas, as negociações milionárias. Não há um interesse em uma reflexão sobre isso", destaca.

 

E, ao tocar na irracionalidade humana, o futebol faz, por exemplo, um intelectual pós-graduado se comportar como uma criança e xingar um outro adulto, no caso o juiz, ou um adversário. Ou até mesmo um jogador de seu time.

 

"Isso ocorre porque é algo intuitivo, não tem a ver com a lógica. Nestes momentos, o futebol se torna uma forma de desopilar e a pessoa, independentemente de sua formação, não quer abrir mão daquilo. Não vejo isso como algo saudável, é como voltar a ser criança e se revoltar contra a autoridade. Não vejo como a melhor maneira de lidar com questões internas, assim como não adianta nada a pessoa sair gritando no trânsito", completa.

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